sexta-feira, 20 de maio de 2011

BECHUCOTAI ou, PORQUE EU NÃO QUERO MORRER


BECHUCOTAI ou, PORQUE EU NÃO QUERO MORRER
(Midrash da Parashá Vayicrá (Levítico) 26:3 a 27:34)

...não me ensina a morrer/ que eu não quero/
...é como se perder de D’us/ e eu não quero/...
in Perdão Você in cd Marisa Monte

Um dia, com os pés sobre o Sinai, o Eterno chamou as almas judias (nefesh iehudim) em sua Mão e contemplou-as com seus olhos de fogo, dando-lhes o elemento vivificador. Tomou-as em suas mãos, concentrando-as, iluminando-as e provendo cada uma delas de capacidade de movimento e discernimento, lançando-as, por fim, como um semeador, em todos os tempos e lugares, para que se realizassem integralmente e criassem ambientes propícios para a humanização.

A voz de HaShem, convertida em Torá תורה , ecoou desde os tempos de Avraham avinu e se fez retumbante diante de Moshè. Fez-se davar! Fez-se humana! Fez-se próxima! Fez-se única e imortal!

E porque a misericórdia dEle é duradoura, fez sua Torá תורה imprimir-se nessas almas concentradas, então, em suas Mãos e, ao lançá-las em um tempo/espaço humanizáveis, orientou cada uma delas com Mitzvôt, ou seja, com Palavras-Princípio. São elas, as Mitzvôt, que garantem a saúde do corpo, da alma, do espírito e das relações sociais. São elas que fazem um homem e uma mulher erguerem suas cabeças e seus olhos e possuírem seu tempo! São elas que nos alinham com HaShem e com todas as forças da creação. São elas que nos possibilitam a integridade de todos os setores de nossas existências. E, ainda, são elas que nos dão a força necessária para empurrarmos nossos filhos para adiante, para um futuro em que não estaremos, no qual dependerão exclusivamente das Mitzvôt para sobreviverem.

As Mitzvôt nos garantem o sereno planejamento da nossa economia, a tranqüilidade das transações, uma energia suplementar para o abrir as janelas, a supremacia sobre o tempo, sobre as oportunidades, porque elas nos ensinam a contar. Contamos horas, dias, meses e anos! Contamos entre uma Festa e outra e utilizamos o tempo a nosso favor. Elas nos garantem um domínio singular sobre as necessidades básicas, de alimentação e vestuário, sobre as oportunidades de trabalho e de descanso. Com elas escolhemos a dedo o que queremos pôr em nossas mesas, em nossas casas.

Com elas, criamos um ambiente propício, em que a massa do pão cresce e o seu perfume, ao forno, percorre todos as salas, quartos e vidas. Com elas, olhamos em direção ao sol (mas, não para o sol) e vislumbramos Yerushalaim e, irresistivelmente, cantarolamos o Sh’má...

E quando nos encontramos em situações-limite, em situações de opressão e perseguição, em problemas cotidianos, apenas com elas, as Mitzvôt, nos levantamos, sem excitação, sem perda de energia, e descobrimos as perspectivas diante de nossos olhos! Com elas não ficamos sem perspectivas!

Por isso mesmo, HaShem usou, em uma das mãos a sua Justiça אלהים e, em outra, a Misercórdia יהוה , para nos legar as Palavras-Princípio, ou seja, as Mitzvôt. Com elas vivemos e sem elas, morremos! Com elas conseguimos passar adiante, sem que nos sintamos sufocados, com o peito fechado e a respiração ofegante. Com elas não trocamos o pão pelo lixo, nem nos sentimos compelidos a um suicídio cotidiano, não precisamos de elementos artificiais em nossas relações inter-pessoais. Com elas não temos pressa nem jogamos nossos recursos ao vento, não ficamos excitados pelo vazio e mantemos, pontualmente, o discernimento lê chaim (para a vida)!

Bechucotai בחוקתי é o movimento em direção à luz. É um simples e atento movimento em direção ao que está posto em nossas almas, em nossos olhos, em nossas vidas (a vida inteira). É o passo necessário para não nos afligirmos na ansiedade, na depressão, na excitação e na perda das perspectivas. Baruch HaShem!

E, assim, fortalecidos, amadurecidos e resolvidos pelas Mitzvôt, sentimos, à distância, a voz de HaShem, porque nesse momento, ela nos faz sentido! E ouvimos as vozes de Avraham, Ytzchak e Ya’akov, e a voz de Moshè, e as vozes de Sarah, de Rivka, de Leah e de Rahel, as nossas matriarcas nos legando leveza e robustez. Sabemos o caminho de ida e de volta!

© do autor, Contagem do Ômer, em 1 de Sivan, 5768 (3/6/2008)

Pietro Nardella-Dellova. Mestre em Direito pela USP e em CRe pela PUC/SP. Rav na Sinagoga Scuola. Membro da UBE. Autor dos livros AMO, NO PEITO e ADSUM. Professor e Consultor de Direito
Mais informações e textos: http://nardelladellova.blogspot.com/
Contato: professordellova@libero.it

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