terça-feira, 8 de março de 2011

ACERCA DE UMA MATRIARCA...

... ou, como destruir espelhos, academias, manequins, clubes, romarias, religiões, frases positivas
do Mestre J. Pietro B. Nardella Dellova

“vejo cansadas e mal-amadas, mulheres ao vento,
no momento de ânsia,
com homens cansados de vento, momento sem ânsia”
ADSUM, 1992

Conheço uma mulher -viva, humana e sonora- que concentra em si todo o poder, na terra, de fazer o amor e a poesia estarem juntos: uma mulher que inspira o beijo íntimo e a música, a delicadeza e o afeto, o navegar por rios e o estar parado diante do mar, o urro e o silêncio; e que inspira o umbigo e o vinho, o vôo às estrelas e uma longa caminhada por trilhas na serra, o passado, o presente e o futuro, e que inspira, ainda, tanto a audição –de olhos fechados- das aflições de Callas, Mirella e de Maysa, quanto a audição sensual de Pausini, Brightman e Marisa Monte, como a alegria inconseqüente de um samba de Adoniran ou de uma tarantella napolitana. Bem como, inspira, tanto a leitura atenta dos amores de Salomão, Petrarca e de Vinícius, quanto das angústias de David, Dante e Manuel Bandeira, como das ironias de Fernando Pessoa, Machado de Assis e Drummond. Uma mulher que inspira, sobremodo, a sessão de uma peça de Ésquilo, Shakespeare e Plínio Marcos ou de um filme de Wood Allen, Giuseppe Tornatore e Walter Salles.

É uma mulher plena, liberta e determinada –senhora única da sua vida, do seu tempo e das suas mãos. Tem em uma delas o controle da sua própria carne e ossos, da sua alma e sentimentos, do seu espírito e pensamentos; e em outra, o domínio das suas estações de outono, de inverno, de primavera e de verão. Por isso se compreende poeticamente –o melhor caminho para compreender- que esta mulher, graciosa, é tão serenamente harmônica e completa: corpo-alma-espírito.

E por isso se compreende, também, que em função do seu tempo, recomeçando sempre no início do outono, a poesia é, primeiramente, brisa suave, e depois ventos frios e, ainda, flores e borboletas, para ser, finalmente, calor e fogo: é a poesia que nasce do ingênuo olhar esverdeado do menino e de seu suspiro, e reclama, a seguir, a manta e o abraço, e depois a explosão de vida e de cores para, sem piedade, determinar a comunhão -feita da união de corpos e almas de um homem e de uma mulher!

A um só tempo, esta mulher é tudo, e todas. Dominante, com olhos ao meio, amada e rebelde. Social e dissimulada, fugidia e inocente de todas as culpas. Resistente e protetora. Nela, é possível sentir a carne em chamas, a delicadeza e a singularidade, e o conselho simples e prático, porque em seus braços todas as lições de amor são ensinadas e provocadas, toda vontade de ser pai e começar um mundo novo. Esta mulher nos faz erguer o peito e atravessar desertos e vicissitudes, porque nela há um porto, um farol e uma direção.

Esta mulher é assim como o vinho e como a rocha –que todos procuram matar- mas, que a força original encoraja aos riscos e jogos da poesia e do amor, e assusta e incita, a quem se deve beijar nos lábios, e na face e nos olhos. A esta mulher se pode oferecer do vinho e da poesia pura, de todas as formas e tamanhos: porque tudo lê e tudo entende. Esta mulher, o pão abençoado -feita pelo engenho e dedos artísticos de Elohim- ao lado de quem, tudo parece novo e que desperta a vontade de andar pelo mundo, de ser caminhoneiro, piloto, navegador, astronauta, presidente da república, secretário da ONU, patriarca, rei, de criar, humanizar, plantar trigo e ser jardineiro, de fazer uma cabana, multiplicar filhos e de viver, com intensidade pelo mundo!

Esta mulher pura e forte é o mel (que nunca foi católica nem brasileira –nem pertence ao vaticano- nem aflita, nem objeto ou coberta de tecidos escuros) mas, que santifica e encanta, com olhos singulares de jovem judia. Formada, não do barro, pedra, madeira, isopor, gesso ou metal de artífices (mercenários ou crédulos) mas, de um bom e melhor material: feita do sangue, carne e espírito de Sarah, Rebecca, Liah, e Rachel, e feita da terra prometida, onde se criou tendo diante dos olhos o D’us único e verdadeiro, e que estende a mão e oferece o ventre para formar príncipes, reis, profetas e o Mashiach.

E oferece o canto, que aconselha e imprime na alma a impressão de que ao seu lado tudo estará bem: sua mesa está posta com toalhas brancas, suas flores zeladas, seu pão assado, sua coragem renovada, sua pele enrubescida, suas pupilas e lábios dilatados, seu corpo perfumado e sua cama coberta de finíssimos lençóis azuis e brancos –porque a seu tempo faz seu homem enfrentar a si mesmo, os seus medos, os seus dramas, a sua sociedade desconfiada e patriarcal.

E faz, finalmente, seu homem compreender que os finíssimos lençóis, o corpo perfumado, as pupilas e lábios dilatados, a pele enrubescida, o pão assado, as flores zeladas, a mesa posta com toalhas brancas e a sua música, não são para receber um asno ou um hipopótamo materialista e prepotente, ou um comedor de hambúrgueres e ração, que pisa jardins e segura os talheres como se fossem enxadas e pás e que, tendo a mente impermeável, nada pode ouvir de música. Tudo está posto para receber um homem simples, honesto, educado e formado com as almas dos sábios, musicistas, poetas e profetas: um homem que ama e teme o Eterno!

Esta mulher tão completa assim, plena de vinho, pão e mel, e tão superior, traz em si, ainda, algo da perenidade. É delicada e fina; cheia de fogo, de vida e caráter. Ao andar e ao falar faz lembrar o enigmático e altivo Monte Sinai. Amando e olhando, lembra docemente os canais e o verde do Jordão. Provocada, é o silêncio do Neguev!

Eu conheço esta mulher que gesticula, fala, se banha, se perfuma, cumprimenta, se porta, come e se veste como matriarca, mas abraça, canta, se molha, brinca e beija como amada. Esta mulher nasceu para ser assim, para ter seu umbigo feito cálice, para ser levada todas as noites a ver a lua e as estrelas que saírem do seu ventre e caminhar diante do mar, recebendo da brisa, a poesia e o vinho, e para deixar todos, no salão, sentados e calados, enquanto dança, vestida de céu entre fios dourados, leve e única, completamente única, e receber, per tutta la vita, o nome de mulher amada, para ser querida, muito querida, amada, muito amada, amadíssima!



© copyright do autor

Nas Bênçãos do Eterno e na Luz do Mashiach
São Paulo, aprile 2003 – nissan 5763

© Ms. J. Pietro B. Nardella Dellova, 42, Mestre em Direito pela USP (A Crise Sacrificial do Direito: um estudo de René Girard, Martin Buber e Yeshua). Mestre em Ciências da Religião pela PUC/SP (A Palavra Como Construção do Sagrado: um estudo da Poesia em Heidegger e Osman Lins). Pós-graduado em Direito Civil (Os Direitos da Personalidade). Pós-graduado em Literatura Brasileira (A Palavra Multifacetada: do grau zero e outros graus da palavra). Formado em Filosofia e em Direito. Poeta e Membro da União Brasileira de Escritores - UBE. Autor dos livros: AMO, NO PEITO e ADSUM. Ex-membro da Comissão de Bioética e Biodireito da OAB/SP. Darsham (predicatore) e Mestre da Sinagoga Sêh HaElohim (originada da Sinagoga Scuola (Beit HaMidrash), Lazio, Itália). Membro ativo da Ordem dos Advogados do Brasil e da Associação dos Advogados de São Paulo. Consultor e Palestrista. Professor de Direito Civil, Ética e Filosofia do Direito em São Paulo. Coordenador dos Cursos de Direito da Faculdade de Jaguariúna e da Faculdade Policamp, em SP.

veja outros textos em:
www.faj.br/artigos.php - www.policamp.edu.br/artigos.html

e-mail para contato:
prof.nardella.dellova@virgilio.it
sinagogasehhaelohim@virgilio.it


5 comentários:

  1. Feliz Dia Internacional da Mulher!

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  2. PERFEITO! Que coisa mais linda e incrível e grandiosa e maravilhosa!

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  3. palmas para todas nós mulheres amadas e que amamos!!!!!!!!!

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